quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Morte num hospital


MORTE NUM HOSPITAL

Já nom está,
o velho, o carteiro da aldea.
Quando voltei despois dum feriado
outro home ocupava a cama,
e lembro a sua voz gaélica,
a repetir durante semanas,
várias vezes ao dia,
o nome, o feito,
e único momento de glória,
como as pirámides feitas polos faraós,
umha enganosa muralha contra a própia extinçom:
"Eu som Donald Campbell, nacim
no ano mil oitocentos oitenta e seis
na ilha de Ling;
casei no Grande Hotel,
rua Sauchiehall, Glasgow."

Albert Goodheir (1912-1995), poeta neerlandês




sexta-feira, 13 de outubro de 2017

As torres da capital



AS TORRES DA CAPITAL

Onde esconderei
os negros trevões?
No cérebro, no cérebro.

A maré dos meus dias
muda em silêncio;
agrisalham os meus longos
longos
cabelos, e por dentro,
mesmo no centro do músculo do coraçom,
aninha o cancro. 

Muitas mensages tenho enviado
às torres brancas da capital,
mais como resposta
brotou um rio fluido de negras
sombras que, mudo
e incerto,
se foi dilatando até a turbina cerebral.
Aboiam pois inutilmente
os flocos vermelhos da Esperança;
hai já por toda a parte
nenos que nunca nacerám.

No cérebro, no cérebro.

Mauro Nervi (1959-), escritor italiano em esperanto

http://esperanto.net/literaturo/bk/verk/turcefurb.html

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O destino da nossa língua


O DESTINO DA NOSSA LÍNGUA

o destino da nossa língua
ademais de indicarmos bem
certeiramente vinho ou água
é erguermos a dignidade
entre nós e os amos do mundo
entre ratos e mais leões.

Benoît Philippe (1959-), escritor alemám em esperanto

 

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Maravilha


MARAVILHA

O mundo está ateigado de muitas maravilhas

Maravilha quando medram silandeiros
tantos plátanos e sóforas nas praças das cidades
 

Maravilha nessa teima de vagarmos vagarentos, sem vigor,
atoutinhando

Maravilha nos olhares dos Estados Unidos e da Europa,
sobranceiro par de hipócritas,
se a blindada Israel e os seus mísseis milagreiros
massacram a Faixa de Gaza. Maravilha.


Jorge Camacho (1966-), poeta espanhol em esperanto e em espanhol
 
(nota para lusófonas/os nom galegas/os: ateigado: repleto; silandeiro: silencioso; atoutinhando: às atoutinhadas ou às apalpadelas, a apalpar por falta de vista ou de luz)


terça-feira, 8 de julho de 2014

É isso a vida entom?




É ISSO A VIDA ENTOM?

Nom, nom... ainda chegará o momento.
 
Ainda há brilhar um dia puro, 
ainda a noite pura, ser profunda... 
nom pode inçar-se todo de cinzento.

Nascemos, pois, tam só prò finamento
e pra nos arrastar até a campa? 
É isso a vida entom? Nom, impossível!
Ainda, ainda chegará o momento!

                                                          (1934)

Nikolai Kurzens (1910-1959), escritor letom em esperanto

http://donh.best.vwh.net/Esperanto/Literaturo/Poezio/kurzens/cxu_tio_do_la_vivo.html 

sábado, 24 de maio de 2014

Daquel passado nosso: dous lamentos



DAQUEL PASSADO NOSSO: DOUS LAMENTOS

Daquel passado nosso: dous lamentos,
ou sombras em vagares erradios,

dous gelos, dous abraios fugidios,
dous berros, duas mágoas, dous tormentos.

E jaz o amor, cadáver ao relento,
nos beiços, braços, seios, nesse cio.
Procuras-me com beijos falsos, frios,
por outras bocas, negros firmamentos.


Porém na língua levo o teu gosto
e o ventre teu o meu calor percorre;
vence a saudade, que me alaga o rosto.

E pra unirem-se bradando correm,
embora num tormento contraposto,
as duas ánsias, que afastadas morrem.

Miguel Fernández (1950-), poeta espanhol em esperanto


(notas para galegas/os: cio. apetite sexual, luxúria)
(notas para lusófonas/os nom galegas/os: dous: dois; abraio: espanto, assombro)
 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Um poema é um coito




UM POEMA É UM COITO

Um poema é um coito
que nom tivo lugar,
maré de lascívia que,
ao nom dar com o oceano,
quebrou muros de palavras
e avançou como umha enchente
sobre a chaira de papel...

Um poema nace
após uns nove meses,
dumha saia que bambea,
dumhas ligas,
que alterárom os nervos
e os deixárom vulneráveis.
Um poema é umha pera,

um sucedáneo,
que descarrega por um tempo
a exigência dos colhões.

Um poema é um coito
e, ao mesmo tempo,
um coito é um poema.
                       
                                1959

William Auld (1924-2006), poeta escocês em esperanto

(notas para lusófonas/os nom galegas/os: tivo: teve; chaira (do latim PLANARIA): planície; pera: punheta, segóvia, masturbaçom)