sexta-feira, 13 de outubro de 2017

As torres da capital



AS TORRES DA CAPITAL

Onde esconderei
os negros trevões?
No cérebro, no cérebro.

A maré dos meus dias
muda em silêncio;
agrisalham os meus longos
longos
cabelos, e por dentro,
mesmo no centro do músculo do coraçom,
aninha o cancro. 

Muitas mensages tenho enviado
às torres brancas da capital,
mais como resposta
brotou um rio fluido de negras
sombras que, mudo
e incerto,
se foi dilatando até a turbina cerebral.
Aboiam pois inutilmente
os flocos vermelhos da Esperança;
hai já por toda a parte
nenos que nunca nacerám.

No cérebro, no cérebro.

Mauro Nervi (1959-), escritor italiano em esperanto

http://esperanto.net/literaturo/bk/verk/turcefurb.html

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O destino da nossa língua


O DESTINO DA NOSSA LÍNGUA

o destino da nossa língua
ademais de indicarmos bem
certeiramente vinho ou água
é erguermos a dignidade
entre nós e os amos do mundo
entre ratos e mais leões.

Benoît Philippe (1959-), escritor alemám em esperanto

 

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Maravilha


MARAVILHA

O mundo está ateigado de muitas maravilhas

Maravilha quando medram silandeiros
tantos plátanos e sóforas nas praças das cidades
 

Maravilha nessa teima de vagarmos vagarentos, sem vigor,
atoutinhando

Maravilha nos olhares dos Estados Unidos e da Europa,
sobranceiro par de hipócritas,
se a blindada Israel e os seus mísseis milagreiros
massacram a Faixa de Gaza. Maravilha.


Jorge Camacho (1966-), poeta espanhol em esperanto e em espanhol
 
(nota para lusófonas/os nom galegas/os: ateigado: repleto; silandeiro: silencioso; atoutinhando: às atoutinhadas ou às apalpadelas, a apalpar por falta de vista ou de luz)


terça-feira, 8 de julho de 2014

É isso a vida entom?




É ISSO A VIDA ENTOM?

Nom, nom... ainda chegará o momento.
 
Ainda há brilhar um dia puro, 
ainda a noite pura, ser profunda... 
nom pode inçar-se todo de cinzento.

Nascemos, pois, tam só prò finamento
e pra nos arrastar até a campa? 
É isso a vida entom? Nom, impossível!
Ainda, ainda chegará o momento!

                                                          (1934)

Nikolai Kurzens (1910-1959), escritor letom em esperanto

http://donh.best.vwh.net/Esperanto/Literaturo/Poezio/kurzens/cxu_tio_do_la_vivo.html 

sábado, 24 de maio de 2014

Daquel passado nosso: dous lamentos



DAQUEL PASSADO NOSSO: DOUS LAMENTOS

Daquel passado nosso: dous lamentos,
ou sombras em vagares erradios,

dous gelos, dous abraios fugidios,
dous berros, duas mágoas, dous tormentos.

E jaz o amor, cadáver ao relento,
nos beiços, braços, seios, nesse cio.
Procuras-me com beijos falsos, frios,
por outras bocas, negros firmamentos.


Porém na língua levo o teu gosto
e o ventre teu o meu calor percorre;
vence a saudade, que me alaga o rosto.

E pra unirem-se bradando correm,
embora num tormento contraposto,
as duas ánsias, que afastadas morrem.

Miguel Fernández (1950-), poeta espanhol em esperanto


(notas para galegas/os: cio. apetite sexual, luxúria)
(notas para lusófonas/os nom galegas/os: dous: dois; abraio: espanto, assombro)
 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Um poema é um coito




UM POEMA É UM COITO

Um poema é um coito
que nom tivo lugar,
maré de lascívia que,
ao nom dar com o oceano,
quebrou muros de palavras
e avançou como umha enchente
sobre a chaira de papel...

Um poema nace
após uns nove meses,
dumha saia que bambea,
dumhas ligas,
que alterárom os nervos
e os deixárom vulneráveis.
Um poema é umha pera,

um sucedáneo,
que descarrega por um tempo
a exigência dos colhões.

Um poema é um coito
e, ao mesmo tempo,
um coito é um poema.
                       
                                1959

William Auld (1924-2006), poeta escocês em esperanto

(notas para lusófonas/os nom galegas/os: tivo: teve; chaira (do latim PLANARIA): planície; pera: punheta, segóvia, masturbaçom)


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Noite colorida


NOITE COLORIDA

a suave noite dos gatos
roçou a janela
bebeu numha cunca invisível
leite frio...
No raio verde de neon
esticou o negro rabo
e ensopou o pezinho
numha banheira negra;
e quando a lua chea
desaguou no céu da noite

fitou com olhos d’ouro
naquel disco de prata...
As antenas (orelhas em ponta)
estendeu entom com força
para saudar sussurros
dumha orquestra em branco e preto...

Julia Pióro (1902-1988), poeta polaca em esperanto

(notas para lusófonas/os nom galegas/os: cunca: chávena (PT, PALOP), xícara (BR)).




Filme português de animaçom: Estória do gato e a lua (1995), de Pedro Serrazina